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Morte do ex-governador da Paraíba, Antônio Mariz completa 24 anos

Há 24 anos, a Paraíba entrava em luto com a morte do ex-governador Antônio Marques da Silva Mariz. O líder político nasceu em João Pessoa em 5 de dezembro de 1937. Era filho do Sr. José Marques da Silva Mariz de D. Noemi de Holanda Mariz.  Seu pai foi deputado estadual de 1928 a 1930, participou da Revolução de 1930 e foi interventor federal na Paraíba de dezembro de 1934 a janeiro de 1935, voltando a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de seu estado entre 1951 e 1953. Seu avô, de quem herdou o nome, foi político do Império e deputado federal de 1894 a 1903.

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Casou-se com Dona Mabel Mariz, com quem teve duas filhas. Antônio Mariz foi advogado, promotor de justiça,  prefeito de Sousa (19631969), secretário de Educação, deputado federal pela Paraíba por quatro mandatos, senador (19911994) e governador da Paraíba de 1 de janeiro de 1995 até 16 de setembro de 1995, quando faleceu vítima de um câncer.

Antônio Mariz iniciou sua atuação política na época de estudante na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, onde militou no Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco). Formou-se em ciência política em 1959 pela Universidade de Nancy, na França, e em direito em 1960 pela Universidade do Brasil. Iniciou suas atividades profissionais neste último ano, atuando como adjunto de promotor de justiça em Natal, Arês e Martins, no Rio Grande do Norte. Em 1962 retornou a seu estado, passando a exercer as mesmas funções em Antenor Navarro e São João do Cariri. Foi promotor de Justiça, antes de se candidatar a prefeito de Sousa, na Paraíba, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em 1963.

Disputou as eleições com os candidatos da UDN, Felinto da Costa Gadelha – representante do grupo Gadelha, dominante no município –, e do PSD, o médico Laércio Pires. Durante o pleito, adotou um discurso inovador. Defendeu a anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social,(CTPS), então desconhecida, o pagamento do salário mínimo aos trabalhadores e a necessidade da reforma agrária na linha das reformas de base do então presidente João Goulart. Assumiu o compromisso público de prestar contas de todo o dinheiro que entrasse e saísse dos cofres da Prefeitura. Foi eleito, primeiramente, com uma diferença de apenas dez votos. Feita a recontagem, a pedido do grupo Gadelha, a diferença caiu para sete votos.

Após o golpe militar de 1964, Antônio Mariz foi acusado pelos udenistas de Sousa de ter sido solidário ao presidente João Goulart, por meio de telegrama que lhe enviou, e de ser comunista e subversivo. Foi afastado do cargo, preso e submetido a um Inquérito Policial-Militar (IPM) perante o Grupamento de Engenharia de João Pessoa. Permaneceu detido por pouco tempo, logo reassumindo a Prefeitura. A transparência foi uma marca da sua gestão. Por meio da rádio Difusora Rio do Peixe, todos os dias prestava contas das despesas e receitas públicas.

Como deputado federal, defendeu a restauração da ordem democrática e da liberdade política. Comprometido com a luta pelos direitos humanos, apoiou a CPI que investigaria a prática de tortura, o desaparecimento e o assassinato de presos políticos. Prestou solidariedade a jornalistas presos e condenou o fechamento de jornais. Considerado um dos grandes juristas na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, saía sempre em defesa do Brasil, do Nordeste e da Paraíba.

Em 1990, Mariz candidatou-se à única vaga ao Senado, em uma eleição na qual o candidato do PMDB ao governo da Paraíba foi Ronaldo Cunha Lima. Mariz derrotou o então senador Marcondes Gadelha (PDS) por uma maioria superior a 200 mil votos. No segundo turno para o governo, Ronaldo Cunha Lima venceu o ex-governador Wilson Braga, com vantagem superior a 100 mil votos.

O maior desafio de Antônio Mariz como senador foi relatar o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor na Comissão Especial do Senado Federal, em 1992.Durante o processo, Mariz atuou com serenidade e respeito aos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. O parecer apresentado por ele foi aprovado quase por unanimidade na comissão. Foram 76 votos a favor e apenas 3 contra.

Em 1994, Mariz foi eleito governador da Paraíba pelo PMDB, derrotando, no segundo turno, a candidata do PDTLúcia Braga, com 222 mil votos de vantagem. Mesmo que em um período muito curto, imprimiu a sua marca de governar. Já no discurso de posse deixou clara a opção preferencial pelos pobres. Para definir a sua gestão, criou o slogan Governo da Solidariedade. Estabeleceu como prioridades a otimização da rede pública de saúde e a elaboração de um arrojado programa de educação pública, além da instalação de bibliotecas por todo o estado. Também priorizou os salários dos servidores públicos e centrou grande preocupação na geração de emprego e renda, por meio do fortalecimento do Projeto Meio de Vida.

O Governador Antônio Mariz determinou a retirada do piso do palácio  com suásticas da década de 30. O piso com os mosaicos de suásticas —o símbolo do nazismo— cobriam uma sala dos fundos do palácio. Os mosaicos foram colocados em 1937 por determinação do então governador paraibano, Argemiro Figueiredo, segundo historiadores paraibanos. “Meu governo não é nazista e eu não sou nazista”, disse Mariz.

Antônio Mariz foi um político sério, digno, carismático, honrado, de indiscutível honestidade, símbolo e referência na arte da política.  Homem de bem, íntegro e correto. Rotulado na política paraibana com o “exemplo de ética”. Mariz foi um grande exemplo de homem público, um vulto digno e probo. Um político que nasceu para liderar com a razão e a emoção juntas.  Teve uma brilhante trajetória nos mundos jurídico, político e cultural.  Mariz morreu, mas os seus ideais não morreram. Foi um homem que praticou a política como ela deve ser exercitada: com honestidade, com seriedade e principalmente com o orgulho de ser político. Mariz foi um político respeitado até mesmo pelos seus adversários e muito contribuiu para o processo de democratização do País, tendo desempenhado papel significativo no processo constituinte, que democratizou o Brasil.

Abdias Duque de Abrantes – jornalista, servidor público, advogado, graduado em Direito pela UFPB e pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Potiguar (UnP), que integra a Laureate International Universities

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