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O repúdio as cenas desrespeitosas de brasileiros durante a Copa do Mundo na Rússia

Um grupo de brasileiros  protagonizou umas cenas grotescas e vergonhosas   durante a Copa do Mundo na Rússia. Os brasileiros cercaram uma jovem mulher, aparentemente russa, fazendo-a repetir palavras de baixo calão, em escárnio ao seu órgão sexual, sem que ela fizesse a menor ideia do que estava falando. A naturalidade com a qual esses homens desrespeitam a estrangeira, divertindo-se às gargalhadas, pulando e cantando um coro misógino, racista e abusivo, somente confirmam o quanto estamos doentes enquanto sociedade.

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O comportamento dos brasileiros ofendeu a dignidade da mulher ainda não identificada, expondo-a a humilhação pública por meio de uma conduta nitidamente machista e discriminatória. Deplorável que brasileiros tenham participado de cenas grotescas. Falta de lisura, de educação, ética, lhaneza, caráter e brio.

Três dos torcedores que aparecem no vídeo já foram identificados – o pernambucano,  advogado e ex-secretário de Turismo de Ipojuca (PE) Diego Valença Jatobá, advogado e político, e o piauiense e ex-membro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Piauí (Crea-PI),  Luciano Gil Mendes Coelho, um engenheiro civil e Eduardo Nunes, tenente da Polícia Militar em Lages, Santa Catarina. O turista que apareceu no vídeo é Felipe Wilson, que trabalhava na Latam, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo foi demitido.

Além do machismo apavorante, o que causa ojeriza e vergonha é a violência moral, cometida por homens que deveriam saber os limites de seus atos.  O grupo não estava apenas se regozijando as custas de quem não entendia uma única palavra proferida, mas também comprovando a naturalidade com a qual praticam a imoralidade, pois seus integrantes fizeram vídeos, tiraram fotos e publicaram em suas redes sociais, para que todos compartilhassem com eles esse momento de “alegria e diversão”, registrando a chacota, o abuso e a agressão contra uma mulher.

Foi um episódio de iniquidade, que retroalimenta a violência, aumentando os números que atrasam o nosso desenvolvimento democrático. A exploração e o constrangimento sexual são parte da vida das mulheres e as atinge em todas as gerações. É responsabilidade de todos nós reduzirmos práticas que exponham as mulheres e as objetifiquem, reduzindo-as aos seus corpos.

O abuso foi covarde e degradante, atingindo todas as mulheres do mundo. É fundamental robustecer políticas públicas e institucionais para combater a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres, adotando práticas de igualdade e respeito.

Os dados do 11º Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no ano passado, demonstram que uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil a cada duas horas. Outra informação apavorante é em relação ao estupro: a cada 11 minutos, uma mulher é vítima de violência sexual. E, a todo momento, as mulheres são banalizadas e assediadas na internet, nas ruas e na mídia.

A jurista russa e ativista russa Alyona Popova fez uma denúncia e escreveu uma petição contra os atos machistas por violência e humilhação pública à honra e à dignidade de outra pessoa. Segundo ela, as punições para os ofensores podem variar de multa a restrições na Rússia.

O Brasil é o 5º país com maior taxa de assassinatos femininos no mundo. De acordo com o dossiê, o Brasil atingiu em 2013 uma taxa média de 4,8 homicídios a cada 100 mil mulheres, sendo a taxa média de 83 nações 2 assassinatos a cada 100 mil. Dessa forma, o Brasil passou da 7ª posição em 2010 para o 5º lugar em 2013. No ranking, El Salvador, Colômbia, Guatemala e Federação Russa estão na frente do Brasil.

O Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, que define o comportamento preconceituoso contra as mulheres.  O machismo e a misoginia não são aceitáveis sob nenhum aspecto, muito menos em um acontecimento como a Copa do Mundo, realizado para promover a integração entre povos e culturas do mundo todo.

 

Abdias Duque de Abrantes – jornalista, servidor público, advogado e pós-graduado em Direito Processual do Trabalho pela Universidade Potiguar (UnP), que integra a Laureate International Universities

 

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